Sorvete a R$ 5: o plano de R$100 milhões da gigante asiática Ai-Cha para crescer no Brasil
- Exame
- 2 de fev.
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Marca asiática projeta 150 lojas no Brasil, com faturamento potencial de até R$ 270 milhões por ano
A Ai-Cha, rede asiática de chás, bubble teas e sorvetes soft fundada, vai abrir sua primeira loja no Brasil no dia 20 de fevereiro, no bairro da Liberdade, em São Paulo. A unidade marca a estreia da empresa no país e o início de um plano de expansão que prevê 150 lojas, investimento anual estimado em cerca de R$ 100 milhões e faturamento de até R$ 270 milhões por ano.
A aposta da marca parte de uma leitura direta sobre o mercado brasileiro. Nos últimos anos, o consumo de bebidas asiáticas cresceu, mas permaneceu concentrado em cafeterias especializadas e shoppings, com preços elevados e alcance restrito. A Ai-Cha entra nesse cenário com uma estratégia baseada em escala, padronização e preço, oferecendo produtos a partir de R$ 5.
“Vamos começar com um produto de entrada que são sorvetes a partir de R$ 5 nas casquinhas e bebidas a partir de R$ 10. O ticket médio deve ficar entre R$ 12 e R$ 13”, afirma Matheus Diniz, head de marketing e comunicação da Ai-Cha no Brasil.
Criada em 2019 pelos irmãos Lie, a empresa nasceu na Indonésia para democratizar o consumo de bebidas e sorvetes soft. A marca ganhou tração durante a pandemia, acelerou sua presença regional e iniciou uma expansão internacional que hoje alcança 31 países. Ao todo, são mais de 2 mil lojas entre unidades em operação e contratos assinados, sendo cerca de 1.500 já em funcionamento.
A operação faz parte do Nanyang Group, conglomerado asiático com atuação em diferentes setores, como alimentação, indústria química e mídia. A AI CHA integra o braço de alimentos do grupo e tem uma marca-irmã, a Zhengda, que ainda não opera no Brasil.
Expansão acelerada e investimento no Brasil
A escolha da Liberdade para a estreia da Ai-Cha no Brasil segue a lógica adotada por outras marcas asiáticas. O bairro concentra restaurantes, comércios e eventos ligados à cultura oriental e se consolidou como um dos principais polos desse público na capital paulista.
Diferentemente de redes que optaram por shoppings na entrada no país, a Ai-Cha escolheu uma loja de rua, modelo mais alinhado a consumo recorrente e ticket médio baixo. A primeira unidade terá cerca de 140metros quadrados, distribuídos entre térreo e mezanino, e funcionará como operação própria e vitrine da marca no país.
Por enquanto, será a única unidade direta da empresa na América Latina. A partir dela, toda a expansão será feita por franquias.
A inauguração da loja na Liberdade marca o ponto de partida de um plano de crescimento acelerado. A AiCha projeta abrir 150 lojas no Brasil em até 12 meses, todas operadas por franqueados.
Segundo a empresa, cada unidade deve faturar entre R$ 100 mil e R$ 150 mil por mês, o que representa cerca de R$ 1,5 milhão por ano por loja.
Com base nessas projeções, a receita anual da marca no Brasil pode chegar a R$ 270 milhões. O investimento direto da companhia no país é estimado em cerca de R$ 100 milhões por ano, voltado à estruturação da operação, logística, marketing, equipe corporativa e suporte aos franqueados. O capital para abertura das lojas ficará majoritariamente a cargo dos investidores locais.
O modelo de franquia prevê investimento inicial em torno de R$ 200 mil por unidade. A empresa não cobra royalties mensais, apenas uma taxa anual de administração. Segundo a AI CHA, o prazo de retorno é de até 18 meses, com uma estrutura de custos até 30% mais barata do que a concorrência direta.
Da Indonésia para o Brasil
Apesar de recente, a trajetória da Ai-Cha é marcada por crescimento rápido. Um dos principais exemplos citados pela companhia é a operação na Malásia, onde foram abertas 300 lojas em apenas um ano. Em um intervalo ainda mais curto, de seis meses, a rede inaugurou 618 unidades, movimento que rendeu reconhecimento internacional pelo ritmo de expansão.
O portfólio da marca inclui chás quentes e gelados, bubble teas, cafés e sorvetes soft. Os produtos são preparados sem gordura animal ou vegetal, utilizando água e espessantes, o que facilita a padronização e reduz custos. Entre os itens mais vendidos globalmente estão o ice crush de limonada, o bubble tea de matcha e o sundae com calda de açúcar mascavo e pérolas de tapioca.
No Brasil, o cardápio será implementado de forma gradual. Nos primeiros quatro meses, as lojas operarão com uma seleção focada em chás, bebidas geladas e sorvetes. A linha de cafés será adicionada a partir do quinto mês, em uma tentativa de dialogar com hábitos de consumo locais.
A decisão de entrar no Brasil está ligada à percepção de que o consumo de bebidas asiáticas deixou de ser um nicho. Segundo dados apresentados pela empresa, o mercado cresceu cerca de 7% ao ano nos últimos dois anos. A projeção é que esse ritmo avance para 10% ao ano a partir de 2026, impulsionado pela maior exposição à cultura asiática, pela urbanização e pela atuação de influenciadores digitais.
“Percebemos que, no Brasil, se você quer consumir uma bebida asiática, precisa pagar caro. A nossa proposta é levar a expertise que desenvolvemos na Ásia e entregar isso de forma acessível”, diz Diniz.
O avanço dessas redes ocorre em paralelo à crescente influência da cultura asiática no consumo urbano brasileiro, impulsionada por entretenimento, redes sociais e novos hábitos alimentares. Para a Ai-Cha, o Brasil também funciona como mercado-teste. “É um dos países mais desafiadores da América Latina. Se o modelo funciona aqui, tende a funcionar em outros mercados”, afirma o executivo.
Concorrência e próximos passos
No ambiente competitivo, a Ai-Cha reconhece concorrência direta com outras redes asiáticas que estão chegando ao país, além de marcas de bubble tea e cafeterias já estabelecidas. Indiretamente, disputa espaço com redes de café e sobremesas que oferecem parte do portfólio explorado pela marca.
O principal risco está na execução. Escalar rapidamente mantendo preço baixo, padrão de qualidade e logística eficiente exige controle rigoroso da operação.
“Nosso desafio não é abrir loja, é manter padrão e preço em escala”, diz Diniz. “O mercado vai ficar mais competitivo, especialmente em preço. Isso é inevitável.”
Recentemente, a chinesa Mixue anunciou sua chegada no Brasil com investimento de R$ 3,2 bilhões.
A empresa estima gerar cerca de mil empregos diretos no Brasil no primeiro ano de operação, além demais de duas mil vagas indiretas. Considerando toda a América Latina, a projeção é de três mil empregos diretos e seis mil indiretos.
Após iniciar operações simultaneamente em Brasil, Argentina, Peru e Chile, a Ai-Cha já estuda uma nova rodada de expansão na região, com países como Uruguai, Paraguai, Bolívia, Colômbia e Venezuela no radar. México, Estados Unidos e Canadá também aparecem como possibilidades futuras.
Se repetir no Brasil a velocidade de crescimento observada em outros mercados, a chegada da Ai-Cha tende a pressionar preços e ampliar o acesso a bebidas asiáticas, em um segmento que deixou de ser restrito a nichos e passou a disputar espaço no consumo urbano.
Por: Isabela Rovarato

