top of page

Renner quer ser 'linha de frente' na doação de roupas para o RS, diz CEO

Atualizado: 30 de mai.


Fabio Faccio diz que empresa fechou até 4% das lojas no estado e teve 400 funcionários atingidos


A gaúcha Renner, que nasceu vendendo capas de lã para o frio e a chuva no início do século passado, planeja atravessar a tragédia das enchentes em seu estado como referência para a doação de roupas às vítimas.


Segundo o CEO, Fabio Faccio, a empresa quer se tornar linha de frente no enfrentamento da crise, assim como os profissionais de saúde fizeram na Covid. "Na pandemia, a gente não podia estar na linha de frente. Então, ficamos por trás e apoiamos os médicos, hospitais. Mas agora podemos estar na linha de frente também", diz.


Além das próprias doações, a empresa abriu pontos de coleta em centros de distribuição e lojas pelo país para receber as doações de clientes e fornecedores e transportá-las até o Sul.


Com 13% de suas lojas no Rio Grande do Sul, a companhia, que também tem marcas como Camicado e Youcom, precisou fechar algumas das unidades. Segundo o executivo, cerca de 400 funcionários foram atingidos pelas chuvas com grandes perdas e tiveram auxílio da empresa para se realocar em casas de familiares ou hotéis, além de antecipação de férias, 13º e depósito emergencial.


Faccio vê a catástrofe como consequência da atuação humana sobre o meio ambiente e defende maior compromisso das empresas e do poder público com a sustentabilidade. "Nestes eventos climáticos que estamos presenciando, fica ainda mais clara a importância. Se alguém tinha dúvidas, está vivendo a experiência na prática, infelizmente", diz.


O aquecimento global atinge em cheio o setor de vestuário ao prejudicar a venda das roupas de inverno, que costumam ter mais valor agregado, mas Faccio afirma que a moda se adapta vendendo roupas mais leves.


"Atualmente, tem tido um comportamento de usar mais camadas. Em vez de usar uma peça mais pesada, a pessoa usa duas ou três mais leves. Se esfriar, ela compõe. Tem opções. A opção que não temos é a de lidar com esses efeitos que estamos lidando, como sociedade e humanidade, que impactam muito mais a todos nós", diz.


Como a Renner está lidando com a tragédia? A Renner nasceu no Rio Grande do Sul. Nos sentimos responsáveis pelo estado. É um cordão umbilical. Dividimos nossas ações em quatro pilares. O pilar 1 é proteger as pessoas, tanto as do nosso time quanto clientes e comunidade.


Com recursos nossos para barcos e equipes, resgatamos mais de mil pessoas, algumas delas do nosso próprio time. Fechamos temporariamente algumas lojas onde não era possível operar ou poderia ter risco de transporte ou deslocamento.


Quantas? Quando começou o impacto maior, o pico chegou a 4% de todas as lojas. Temos 669 lojas, somando Brasil, Argentina e Uruguai com Renner, Camicado Youcom e Ashua. Hoje, está em torno de 1% das lojas fechadas.


E tem algumas com horário reduzido. Em alguns locais, a segurança pública pede para fechar mais cedo por risco de deslocamento à noite ou pelo transporte. Iluminação natural também é uma questão de segurança. Estamos adaptando a operação.


Quais são os outros pilares de ação? Temos o pilar 2, que é estar na linha de frente ajudando para a questão das roupas. Na pandemia, tivemos atuação semelhante para algumas coisas, mas o pilar era apoiar quem estava na linha de frente naquele momento, porque a gente não podia estar. Então, nós ficamos por trás e apoiamos os médicos, hospitais. Mas agora podemos estar na linha de frente também.


Temos 380 mil peças prontas para doar, sendo que 80 mil já estão com a Defesa Civil e parte já foi doada.

Estamos preparados para doar mais. Neste momento, as pessoas que perderam tudo não têm onde colocar as coisas, mas depois, quando voltarem para casa, vão precisar de mais roupa.


Como nós somos uma das maiores empresas no estado, temos esse papel de ponte para ampliar as ações de quem queira ajudar. Então, o pilar 3 são as parcerias, conectando empresas com órgãos públicos e instituições locais. Temos parceria com a Cufa e o Sesc, por exemplo.


Também vamos ajudar na fase da reconstrução, tanto das moradias como da infraestrutura de estradas, pontes e aeroporto. Estamos formando coalizões, por exemplo, com o Instituto Ling.


O pilar 4 é manter a saúde financeira da empresa. Fazer tudo isso e continuar operando, mitigar possíveis perdas para continuar gerando resultados e lucro para continuar ajudando.


Qual é o volume de doações? Foram mais de 112 mil litros de água, 28 mil cobertores e roupas de cama e toalha, 52 mil itens de higiene e limpeza e 31 toneladas de alimentos.


Nossos fornecedores também estão contribuindo. Parte disso vem deles. Estamos recebendo doação nas lojas e nos nossos centros de distribuição e trazendo para cá. Tem muita gente querendo ajudar e não sabe como.


Quais foram as perdas da empresa? Não tivemos perdas de materiais. Tivemos algumas lojas em que entrou água, mas pouca, e deu tempo de tirar equipamentos e roupas. Não teve casos de inundação. As lojas que estão fechadas são por dificuldade de acesso ou por água num dos pisos.


O impacto maior é no abastecimento? No fluxo de abastecimento e de pessoas nas lojas. Do nosso parque de lojas total, 13% está no Rio Grande do Sul, e 11,5% do faturamento está aqui. Algumas unidades não sentiram nada, como as do norte do estado. Algumas estão capturando um pouco do movimento de pessoas de outras cidades que migraram. Então, uma parte do faturamento do estado está sendo impactada, não toda.


Quanto ao abastecimento, os nossos centros de distribuição ficam em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. A maior parte das lojas está sendo abastecida, com raras exceções que estão com tempo de abastecimento um pouco mais longo em função do fluxo das estradas para algumas cidades.


Isso acontece em um momento de forte preocupação do varejo em geral com outro tema, a isenção das vendas de US$ 50 dos sites estrangeiros, não? O que a gente pede é tratamento tributário isonômico para as empresas nacionais e estrangeiras, livre competição. No Brasil, as empresas nacionais pagam em média 90% de imposto para um mesmo produto que uma empresa estrangeira paga 17%. É o protecionismo às avessas, um absurdo que está exportando empregos brasileiros, quebrando a pequena indústria, o pequeno varejo e já as grandes indústrias e varejistas nacionais. Não há ninguém no país que seja contra a isonomia. É um tema de interesse de todos e espero que seja resolvido.


Os recursos emergenciais do governo para a população devem ajudar a aquecer o varejo? Com certeza, qualquer recurso adicional que for destinado à população do Rio Grande do Sul, neste momento, ajuda diretamente as pessoas afetadas e, indiretamente, toda a economia do estado.


Na questão climática, o calor extremo, que atrapalha vendas de inverno, também preocupa?

Do ponto de vista de negócio, nosso trabalho é proporcionar ao cliente o que ele tem necessidade. Temos opções de produtos para cada clima e estação. É possível se adaptar a isso. É mais difícil, mas é possível.


O que eu acho importante do ponto de vista climático, e tem muito a ver com a pauta das enchentes, é que está cada vez mais claro o impacto que nós, como humanidade e sociedade, estamos tendo no meio ambiente, e que está gerando estes impactos climáticos. Não estou falando só das enchentes no RS. Tivemos os meses de fevereiro, março e abril mais quentes da história, não só no Brasil.


Sobre as enchentes no estado, alguns dizem: 'Lá em 1941 nós tivemos [enchente em Porto Alegre]'.


Mas não foi tão impactante nem tínhamos os sistemas fluviais que temos hoje. Tivemos outra em 1969, um pouco menos relevante. Agora, nós tivemos em junho, setembro, novembro, janeiro e agora em maio. Várias em menos de um ano. A intensidade e a frequência estão maiores.


Em São Paulo, eu dificilmente vi 33 graus por tanto tempo no outono. Pode ter tido um dia ou outro no passado, mas não dessa forma.


Nós, como humanidade, acabamos causando isso. Fica clara a importância de ações de mitigação, descarbonização e redução de impactos climáticos. Isso está na nossa estratégia. Temos compromissos públicos de sustentabilidade. Fica ainda mais clara a importância da sustentabilidade e do compromisso das empresas e dos órgãos públicos nesses eventos climáticos que estamos presenciando. Se alguém tinha dúvidas, está vivendo a experiência na prática, infelizmente. Acho que isso acende a relevância do tema e a urgência.


Ter inverno é importante para o negócio do vestuário porque são roupas de maior valor agregado?

É importante, mas sempre há o consumo de moda. Atualmente, tem tido um comportamento de usar mais camadas. Em vez de usar uma peça mais pesada e de valor mais alto, a pessoa usa duas ou três mais leves. Se esfriar mais, ela compõe. Tem opções. A opção que não temos é a de lidar com esses efeitos que estamos lidando, como sociedade e humanidade, que impactam muito mais a todos nós.


RAIO-X | FABIO FACCIO, 51

Formado em administração pela PUC-SP, foi trainee na Renner em 1999 e ocupou cargos de gerência e direção. Assumiu a presidência em 2019


Por: Joana Cunha

Posts recentes

Ver tudo

תגובות


bottom of page