Por dentro da Gomo Coop, o mercado onde todo cliente é sócio e funcionário
- Exame
- 12 de jan.
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Um grupo de paulistanos juntou R$ 500 mil para criar o primeiro mercado cooperativo do Brasil, que estreou na primeira semana do ano; modelo usa do trabalho em comunidade para abaixar custos
Na Gomo Coop, mercado recém-inaugurado no centro de São Paulo, o cliente não só faz a compra do mês: ele também repõe itens nas prateleiras, ajuda a descarregar caminhão ou até passa um pano no chão. Em troca, tem acesso a produtos orgânicos e sem qualquer agrotóxico por um preço competitivo.
Todo cooperante, como são chamados, paga uma cota-parte de R$ 100 para virar dono do mercado. O modelo é conhecido como mercado cooperativo, e é o primeiro no Brasil e na América Latina. A ideia é que o trabalho da comunidade ajuda a baixar custos operacionais e, portanto, o preço final dos produtos.
Em Nova York, Paris e Madri, esse tipo de loja já existe há décadas. Na cidade americana, por exemplo, a Park Slope Food Coop tem cerca de 16 mil participantes e mais de cinquenta anos de história. Um balanço financeiro divulgado na metade de 2024 mostrava vendas líquidas na faixa dos US$ 55 milhões.
O crescimento em números não veio sem desafios: segundo o jornalista Pete Wells ao New York Times, o Park Slope é conhecido por brigas internas e regras complicadas, mas, claro, também pelas frutas frescas e leite orgânico barato. "Se a experiência provou alguma coisa, é que quando os membros têm voz na gestão do negócio, muitos a usam, e alguns a usam de forma alta e agressiva", escreveu.
Cooperativa à brasileira
Um dos idealizadores do projeto, Chico Lima, chegou a conhecer o Park Slope. “É uma bagunça muito organizada”, conta. O ator ficou inspirado e, quando fez uma aula sobre cooperativismo em São Paulo em 2021, se juntou aos outros 30 e poucos participantes para pensar em como replicar o modelo no Brasil.
Foram quatro anos de reuniões online, planilhas e estudo de cooperativismo até que o grupo fundador juntasse dinheiro e encontrasse um imóvel. No meio do caminho, consultas com cooperativas irmãs da Europa e dos Estados Unidos ajudaram a desenhar o modelo.
Para tirar o projeto do papel, o grupo levantou cerca de R$ 430 mil em empréstimos entre os próprios idealizadores — dinheiro que começa a ser pago de volta em cinco anos — e fez ainda uma campanha de financiamento coletivo que arrecadou outros R$ 100 mil, usada para a primeira grande compra de produtos.
Hoje, a segurança de caixa vem também do chamado capital social: cada cooperante compra uma única cota-parte de R$ 100 ao entrar na Gomo, valor que pode ser devolvido se a pessoa decidir sair no fim do ano fiscal.
“Quanto mais gente, mais baixo o preço consegue ser”, diz Lima. Por enquanto, a Gomo Coop tem 358 cooperantes (ou seja, já conquistaram perto de R$ 36.000 somente em cota-parte) e quer chegar a 700 nos próximos meses. Apesar de ter feito alguns testes em dezembro, abriu as portas oficialmente na primeira semana de 2026.
Por: Laura Pancini

