Curadoria e comunidade: o novo modelo de supermercados em Nova York
- Mercado e Consumo
- 27 de jan.
- 6 min de leitura
Mais uma vez tive o privilégio de iniciar o ano me inspirando com o conteúdo da NRF 2026 e explorando Nova York e, como alguém apaixonado e que se dedica a estudar o comportamento de consumo e estratégias de design para varejo, não há maneira melhor de começar o ano. Durante esses dias, de muitas conversas, olhares e escuta, uma enxurrada de conhecimento e ideias surgem, mas vou compartilhar aqui aquela que mais me chamou a atenção.
Durante a minha carreira, me envolvi e desenvolvi centenas de projetos relacionados ao varejo alimentar, de todo tipo, formato e região, e nunca vi o setor tão pressionado e com a necessidade de ser repensado como nos últimos anos e, até então, não tinha enxergado um caminho tão claro para esse setor como enxerguei agora.
Claro que o que vou expor aqui é uma opinião pessoal e empírica, e que está aplicada em um mercado diferente, mas o meu ponto é trazer uma luz e uma possibilidade de um deslocamento de modelo em um setor pressionado pela guerra de preços.
O que observei foram operações em que o “supermercado” deixou de ser desenhado como um ponto de abastecimento tradicional e passou a explorar, de maneira autêntica e profunda, sua localização, público e sortimento como um lugar de conexão de nicho e curadoria.
Isso não se explica pelo atalho do “luxo” (preço alto, embalagem bonita, público seleto), mas por uma movimentação que não busca competir por amplitude de sortimento e volume de promoções, como estamos acostumados, e sim por relevância, com menos SKUs e mais diálogo com o consumidor.
Antes de entrar no detalhe de dois exemplos que me ajudaram a entender esse movimento, tem um detalhe que me chamou atenção antes mesmo de olhar para layout, sortimento ou comunicação: quem está por trás dessas operações.
Happier Grocery e Meadow Lane não nascem de grandes redes varejistas nem de executivos formados no “manual” do supermercado. São empreendedores com capital cultural na cidade, acostumados a ler comportamento, linguagem e desejo em nichos e a operar comunidade como algo vivo, não como campanha. Isso importa porque formatos novos raramente surgem de otimização do modelo atual; eles surgem de rupturas de pensamento. Quando o olhar vem de fora do varejo alimentar tradicional, a loja deixa de ser apenas eficiência e passa a ser também significado.
Happier Grocery
A Happier Grocery abriu em 2023, no eixo da Canal Street, em Nova York, com lógica de mercado de proximidade, dividida em dois andares, e foco claro em “grab-and-go” (pegar e levar) e preparo no local. A origem do fundador, Wells Stellberger, que tem passagem pelo mercado da moda, design de interiores e espaços culturais, não aparece como estética, mas como uma visão operacional em que o sortimento é tratado como coleção, combinando básicos consistentes com novidades “de temporada”.
Três escolhas ajudam a entender por que a experiência se distancia do supermercado tradicional:
Sortimento
O sortimento não é um altar do ultra-nicho. O essencial convive com o “especial”: itens do dia a dia dividem espaço com produtos mais funcionais e novas categorias de wellness. Essa mistura dá opção ao consumidor, não oferecendo apenas o hype, mas atendendo à rotina das pessoas, que aceitam performance em algumas escolhas e conveniência em outras.
Curadoria que ajuda na decisão
Em vez de gôndolas e exposições densas para maximizar variedade, há espaço e uma sensação de que “alguém já escolheu”. Isso tem um efeito interessante, pois reduz o tempo de decisão e aumenta a confiança no critério da loja, especialmente para um shopper que quer qualidade, mas não quer comparar dezenas de rótulos.
Comunicação reduzida como ferramenta de experiência
Enquanto o supermercado clássico é carregado de informação, como placas, setorização, campanhas, promoções e disputa de atenção dentro da gôndola, a Happier opera no limite do mínimo. Há pouca sinalização e quase nenhuma “fala” promocional. O ambiente lembra uma galeria, em que o cliente precisa olhar, circular, descobrir. A compra deixa de ser só transação e passa a ser também leitura de repertório.
A comunidade, aqui, não aparece como discurso ou uma placa. Ela se forma por encaixe, onde a localização, linguagem visual, edição de produto e atmosfera atraem um mesmo circuito (moda, design, fotografia, bem-estar). Quando isso funciona, a loja se divulga com baixa fricção, sem ter que gritar. O cliente leva alguém, alguém posta, alguém repete.
Nesse contexto, vale citar o papel da estrategista Gabriella Khalil, que desenhou essa operação. Com um currículo de projetos influentes de hospitalidade e cultura na cidade, a presença dela ajuda a explicar a ambição do formato: o varejo é tratado como ecossistema de permanência, e não apenas como abastecimento eficiente.
Meadow Lane
A Meadow Lane, em Tribeca, na 355 Greenwich St, em Nova York, virou assunto antes mesmo de inaugurar. O fundador, Sammy Nussdorf, conhecido online como Brokeback Contessa, documentou o processo em redes sociais, desde as obras, até burocracia, testes de receitas, escolhas de sortimento, frustrações e atrasos. O que seria bastidor “escondido” do público virou uma história contada e acompanhada como quem acompanha uma série.
Isso altera a lógica clássica de lançamento em três pontos:
A comunidade chega antes da loja
No modelo tradicional, a operação abre e depois inicia o esforço de comunicação para gerar fluxo. Aqui, a atenção se acumula ao longo do processo. Os consumidores se sentem parte da construção do negócio, criam empatia e uma relação que até explica a loja vender produtos de lifestyle (camisetas, bonés etc.) da marca. Alguém já se imaginou usando um boné de alguma marca de supermercado no Brasil? Para mim, isso é um claro sinal de quanto a marca é desejada e tem pertencimento por seus consumidores. Não é um brinde; a marca circula no bairro pelos próprios clientes e funciona como extensão visível da marca.
Transparência como ativo, com risco embutido
Expor tentativa e erro troca polimento por confiança. Apesar de ter uma contrapartida dura, como críticas, controvérsias e pressão pública, o ganho é maior, pois gera interesse contínuo por um negócio que, em tese, seria banal (“um mercado de bairro”).
Curadoria “high-low” como antídoto para a pretensão
A Meadow Lane mistura marcas conhecidas com itens de nicho. Esse detalhe faz diferença porque remove a barreira cultural de entrada e, ao mesmo tempo, protege o premium. O cotidiano não é tratado como “menor”, e o especial não precisa humilhar o básico para existir.
O que esses formatos ensinam
Essas lojas não deveriam ser lidas como “tendência para copiar”. Para mim, o valor está na construção de uma nova lógica e nas consequências.
Curadoria é operação, não discurso
Curadoria, nesse contexto, não significa “ter produtos diferentes”, significa editar com coragem, com menos SKUs por categoria, mais intenção por item.
A troca é objetiva:
Abre-se mão de “ter tudo” para ganhar lembrança, confiança e velocidade de decisão. Isso exige disciplina de abastecimento, negociação e margem, e uma tolerância maior ao fato de que a edição aumenta o custo de errar.
Recorrência por vontade muda a economia do negócio
O supermercado tradicional depende da repetição por necessidade. Esses formatos constroem repetição por desejo. O cliente volta para ver o que mudou, para encontrar pessoas parecidas, para decidir mais rápido e para sentir que “faz parte”. É uma recorrência baseada em repertório e atmosfera, não apenas em conveniência.
Design deixa de ser acabamento e vira sistema
O design aqui é tratado como estratégia, não só para ter uma loja bonita. Se o objetivo é permanência e conversa, o layout precisa acolher, não só acelerar o fluxo. Não são lojas caras do ponto de vista construtivo, mas lojas adequadas ao que se propõem, com cuidado nas escolhas, capricho na exposição, sem excesso ou exagero na comunicação.
Reduzir o “custo de convencer” vira vantagem competitiva
Quando espaço, seleção e comunidade já comunicam padrão, o esforço de persuasão diminui. O cliente não entra procurando oferta; entra procurando novidade. Essa inversão não elimina preço como variável, mas muda o centro de gravidade do negócio.
“Saudável” como linguagem de loja (e não como corredor)
Em supermercados tradicionais, “saudável” costuma ser um corredor com uma placa. Na Happier Grocery e na Meadow Lane, a lógica é explorar a saudabilidade com um padrão editorial, como um filtro aplicado ao sortimento, não uma promessa genérica. Cada item precisa “merecer” estar ali.
O resultado é um mix que costuma unir duas camadas que, em lojas convencionais, aparecem apartadas, com itens funcionais mais “de vanguarda”, como bebidas e ingredientes associados a performance, restrições e rotinas específicas; básicos bem escolhidos, com marcas conhecidas e produtos do dia a dia.
A convivência dessas camadas reduz atrito: o consumidor não precisa “atravessar um corredor especial” para fazer escolhas compatíveis com seus critérios. A loja inteira já parte desse recorte.
Happier Grocery e Meadow Lane sinalizam um reposicionamento possível para o varejo alimentar em zonas onde tempo, atenção e identidade valem tanto quanto o metro linear de exposição. Elas não resolvem a guerra de preços, mas saem dela por um caminho de edição, consistência e construção de cultura.
Para quem projeta, opera e comunica o varejo no Brasil, o ponto que eu queria abordar aqui não é o glamour, mas uma nova maneira de se pensar esse formato e romper com a mentalidade atual.
Por: Renato Fregnani
Renato Fregnani é fundador da Freg Design e presidente do Retail Design Institute Brasil.


