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Os coreanos em Nova York


Instituto Jaime Lerner


“Os coreanos em Nova York” é um dos capítulos do livro Acupuntura Urbana que salienta como o entrelaçamento do tempo, do espaço e de comportamentos pode ser usado a favor da cidade e sua dinâmica.


“Costumo dizer que Nova York deveria erguer um monumento ao coreano desconhecido. Os integrantes deste povo prestam um serviço extraordinário à cidade com suas grocery stores, suas deli stores, abertas 24 horas. Estas lojas garantem não só o abastecimento, mas também levam luz e animação a qualquer canto da cidade. Tem gente, luz, as pessoas se encontram quando vão fazer suas pequenas compras. Isso tudo gera mais segurança para o local.“

O capítulo segue com outros exemplos mundo afora que ilustram uma dimensão cada vez mais em evidência do cotidiano, da economia, do planejamento e da gestão da cidade, que é a atenção para o período noturno, a qual pode se desdobrar em diversas camadas. Uma delas toca o tema da sustentabilidade.


O Jaime sempre colocava que parte fundamental da equação de sustentabilidade de uma cidade está em diminuir o desperdício, e um grande foco de desperdício está na ociosidade de infraestruturas/territórios urbanos durante certos períodos, em especial o noturno. Pensemos nas áreas centrais que, de maneira geral, se esvaziam à noite, deixando subutilizados sistemas como os de transporte coletivo e de espaços públicos. Assim, no intercâmbio entre os territórios e as funções urbanas, quanto melhor a cidade funcionasse ao longo das 24 horas, menor a ociosidade, maior a sustentabilidade.


Esse raciocínio ecoa em um outro ponto que o Jaime sempre colocava, que era que por vezes a solução para um desafio da cidade se dá no tempo, e não no espaço – ou seja, não é necessário investir em novas infraestruturas, mas ocupá-las de formas diferentes em tempos diferentes. A proposta das “ruas portáteis” ilustra esse contexto. Fiel ao princípio de oferecer à população o “efeito demonstração” de uma ideia, tais “ruas” são formadas por peças especialmente projetadas de mobiliário urbano, inspiradas nos bouquinistes de Paris, mas portáteis, capazes de acomodar uma infinidade de pequenos serviços e comércios e que podem se instalar nos mais diferentes espaços da cidade – em especial naqueles lugares que mais precisam de nova vida – no contraturno dos horários tradicionais do comércio de rua. É o efêmero se aliando ao permanente em busca de um organismo urbano mais saudável.


Em outros casos, um novo ícone arquitetônico pode promover essa demonstração, como foi o caso da primeira “Rua 24 horas” do Brasil, inaugurada pelo Jaime em 1991, “acupuntura urbana” no centro da cidade que pretendia ser um ponto de referência no cotidiano de Curitiba em uma época que o comércio noturno era muito incipiente na capital.


Motor econômico e de empregos em diversas capitais mundiais (em Nova Iorque, por exemplo, a economia noturna contribui com U$ 35 bilhões para a cidade, enquanto que quase 30% da força de trabalho do Reino Unido atua nesse turno), o tema da cidade em seu período noturno vem ganhando espaço nos estudos urbanos nas duas últimas décadas, com especial impulso a partir da pandemia. Uma tendência que se iniciou nas cidades europeias e que vem se disseminando é a figura do “prefeito noturno” (ou comissões, agências e similares), materializando o cuidado e a reflexão sobre essa janela temporal, que é preciosa para, entre outros, a manutenção de infraestruturas urbanas, para segmentos importantes do comércio e dos serviços (restaurantes, bares, casas noturnas, mercados atacadistas, cinemas, teatros, estádios) e que merecem um olhar criterioso.


As sombras da noite, nesse sentido, não são a ausência da luz, da energia, e sim uma nova dimensão para a expressão do potencial criativo das cidades.


Por: Ariadne dos Santos Daher

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